18 de julho de 2010

E o tempo levou...

Certo dia eu estava andando na rua saindo de uma consulta rotineira da cardiologista, e vi uma moça muito bonita com um lenço na cabeça. Pensei no que ela poderia ter tido para tão nova ter perdido os cabelos, como ela teria reagido aquilo. Não sei, mas tenho uma mania terrível de viver histórias que não são minhas.

Me imaginei no lugar dela por alguns instantes, até enquanto eu a via, pensei em muitas coisas, a dor que ela havia sentido,a superação, do que ela pensava sobre aquilo. Só que a “perdi” de vista e passou.

O tempo também passou. Muitas coisas mudaram. Minha vida já não era a mesma, meus sonhos já não eram os mesmos, meus planos já não tinham os mesmos focos.

Eu estava em um box da UCO – Unidade coronariana, e estava prestes a fazer uma pulso terapia, soroterapia, não sei bem nome, por que cada um me falava nomes diferentes. Um medicamento super forte esta para entrar em minhas veias através de vários sorinhos. E esse medicamento poderia mudar muitas coisas, no entanto isso ninguém havia me dito.

Eu fiz. Não vou dizer que senti aquele líquido entrando em mim, por que seria mentira. Foi tranqüilo, um rapaz bem simpático que por sinal é muito apaixonado por sua esposa e seus filhos, fez com que o tempo passasse rápido contando histórias de sua vida. Muito bonita a família, vale lembrar.

Logo mais tarde senti os primeiros sinais daquele remédio, mas agora vou falar só de um, talvez o mais visível.

Uns dias depois fui para o apartamento, como minha imunidade estava baixa, fiquei em isolamento reverso, que é quando as pessoas precisam colocar máscaras e luvas para entrar no quarto, para evitar levar “sujeira” para o paciente. Fiquei por lá passando por todo o processo que deveria passar. Mas, um dia eu vi que algo estava errado com meu cabelo.

Lembro que foi no banho. Minha mãe sempre estava comigo, ela me dava banho ás vezes, outras me ajudava apenas. E nesse dia eu lavei meu cabelo e quando fui penteá-lo, parecia que alguém havia cortado um pedaço dele. Assustei, quis chorar, quase me desesperei, mas minha mãe mandou eu ficar calma e conversar com médico.

Foi o que eu fiz, falei que meu cabelo estava caindo, que não estava gostando nada daquilo. Que eu queria um remédio para cortar o efeito, que eu não poderia ficar sem cabelo, que eu queria meu cabelo do jeito que era, questionei o médico até dizer chega. Ele disse pra eu ficar tranqüila que careca eu não ficava. Mas eu não fiquei tranqüila.

A cena do banheiro começou a ser freqüente, uma vez chamei a Carol, uma técnica de enfermagem que se tornou uma amiga, companheira fora e dentro do hospital. Ela também assustou, mas disse pra eu ficar calma e voltar a falar com o médico. Fiz isso, e ele me disse que eu precisava me importar com minhas pernas, que eu precisava focar minha atenção em voltar a andar, e não em perder cabelo. Levei uma bronca.

Mas, vai colocar na cabeça de uma mulher isso. Por mais que a situação era difícil, eu não conseguia focar apenas em voltar a andar, eu me preocupava com minha vaidade também. Eu não lembrava, mas havia alisado meu cabelo no meu aniversário, ele estava com um corte bonito, eu lavava e ele estava com um brilho, estava sedoso. Parece que nunca esteve tão bonito. Lembro que um dia o soltei, e deixei o dia todo daquele jeito, e recebi vários elogios, e fiquei toda feliz.

Os dias passaram. E eu cada dia perdia mais e mais meus cabelos. Quando meu médico viu tanto cabelo que estava caindo, foi na segunda vez que fui para o CTI ele desesperou e disse um monte de coisas. Disse que não sabia que isso iria acontecer que não estava acostumado com aquilo, que ele não estava dando conta de mim, afinal ele era neurologista e eu precisava de um reumatologista. Disse que eu estava escorregando entre os dedos dele, que ele não estava sendo capaz o suficiente para cuidar de mim, foi o dia que ele abriu o jogo comigo, isso foi no sábado da mesma semana que eu tive a parada. Nessa hora eu chorei.

Os dias passaram, foi a semana mais tumultuada da minha vida até hoje. Foi quando tudo aconteceu. E cada dia eu tirava um saco plástico de cabelo de minha cabeça. Não aguentava mais aquilo. Não era certo, justo. Eu que valorizava tanto aqueles fios compridos. Mas fui levando. Estava no CTI naquela semana, e lá conheci muitas pessoas, em especial uma técnica que me deu um apoio indescritível, a Shirley. Ela junto com a Ana Paula, fizeram um negócio comigo que é segredo, mas que naquele dia me animou bastante.

Teve outras meninas também do CTI que me ajudaram muito, citei o nome dela por causa de um fato interessante. Eu estava triste por conta do meu cabelo e ela chegou com seu jeito super simpática de ser e disse para eu raspar mesmo, que ela já tinha feito isso quando mais nova, só por que não tinha gostado do corte. Ela lembrou que ia a bailes com lenços, que não estava nem ai. Essa conversa com ela eu decidi, iria raspar mesmo.

Eu pensava já nisso, sempre fui muito 8 ou 80, não é bom, mas nesse caso não dava para sofrer todo dia. E outra, eu sentia uma queimação em minha cabeça horrível, parecia que pegava fogo. Muito esquisita a sensação.

Meus pais eram contra, falavam que talvez uma hora fosse parar de cair meu cabelo. Na hora que acabasse talvez. Não queria sofrer a prestação. Já tinha passado por tantas coisas, que estava consumida, queria felicidade e nada de sofrimento, buscava algo pra ser feliz. E pedi pra minha mãe comprar uma boina pra mim que até o final da semana eu estava careca, ou era natural ou alguém o faria.

E foi assim. Não adiantou esconder espelho de mim, eu passava a mão. Eu sentia, eu via que eles estavam em minhas mãos e não na cabeça. Foi difícil. Mas isso também passou. Lembro que todo dia eu penteava o pouco que eu tinha e as pessoas passavam por mim e me davam tchau, não sei se sentiam dó, ou sei lá, mas ficavam me olhando. Não ligava e continuava com meu dever, enquanto eu os tinha na cabeça, eu os cuidava.

Quando fui para o quarto chamei umas amigas do salão e elas vieram. Não foi como a cena da Carolina Dieckmann naquela novela que ela raspou a cabeça. Não teve música, não teve lágrimas. Ao invés disso eu escolhi o pente menor e sorri. Disse que se era pra ser que fosse logo. Daquele quarto, eu fui a única que não me emocionei. Não sei explicar porque e muito menos o que eu senti na hora que o pouco do que restava rolavam até o chão. A menina que raspou minha cabeça foi a mesma que há meses havia alisado e deixado ele mais longo. Contradições da vida.

Escrevi o seguinte texto quando eu vi que meus cabelos já quase não existiam.

“Isso eu escrevo depois do banho.

Hoje eu acho que posso contar quantos fios de cabelo eu tenho na cabeça. É estranho sabe... Sou, sempre fui muito vaidosa. E isso me deixa com mais medo.

Hoje faz uma semana que não me olho no espelho, tenho receio do que posso encontrar. Minha mãe disse que meu rosto continua o mesmo, e que, sim, já da para ver algumas falhas, ou imensas falhas em minha cabeça.

Parece coisa de outro mundo. Aquele cabelo que mamãe cuidou tanto quando eu era mais nova, que quando eu era criança fazia questão de comprar os melhores xampus , condicionadores. Aqueles mesmos cabelos que tia Aninha e mamãe queriam transformar em loiro, e colocam água oxigenada em minha cabeça mesmo eu tendo só alguns meses de vida, mas que de tão preto ficou ruivo.

Esse mesmo cabelo que quando estava entrando na adolescência, a fase da rebeldia, foi apelidada na escola de camaleão, por que vivia mudando a cor... Foi do preto ao loiro, chegando até ser violeta.

Sim, esse mesmo cabelo que uma hora era cacheado, com cachos definidos que a tia Vilma fazia com tanto carinho, e outra liso ao extremo com tantas chapinha, secador... Esse cabelo esta indo embora...

E olha que eu já reclamei tanto de volume. E no memento não posso mais colocar de lado, no meio, prender em cima, fazer tranças, penteados nem pensar, não tenho mais esses domínios em mãos.

É... Aquele cabelo que eu cuidei tanto durante vinte anos, em vinte dias se foi!!!”

10 comentários:

Bee# disse...

eu nunca tenho nada pra comentarseus textos me deixam num estado de hibernação mental, só refletindo o que eles transmitem...
enytão... oi!

Kamilla Gabriela disse...

Para vc ver como a vida tem seus altos e baixos, apesar de todo sofrimento que vc passou, esta ai firme e forte superando a cada dia seus medos, desafios e principalmente os obstáculos que aparecem a sua frente, muitas vezes desfarsados, mas sempre aparecendo...
Prima adimiro muito vc por sua força e coragem...e sei que vc nunca irá desistir.Te amoo muitoo!

tiago disse...

nossa esse texto toco no fundo do meu coração e percebi a maninha que eu tenho desculpa se algum dia te fiz chorar, se algum dia te magoei, mas saiba que tudo que eu faço e por tds nos amo vc eternmente maninha.

Anônimo disse...

Quando leio seus textos parece que estou sentindo cada palavras, como se estivesse lá vendo a cena e viajo nas histórias contadas,conhecendo vc como conheço, vaidosa.... agora vejo a Aryana forte,as tempestades vieram e lá está ela firme cada dia me surpreendendo ...bju #amu

Aryana Lobo disse...

Oi bee heheheh!!:D

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Kamilla minha flor, brigada viu! Amo mtooooo vc!! :D

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Gordo seu feio! Tbm te amo!

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Lu pq vc postou como anônimo? Se eu não estivesse conversando com vc por msn, e vc tivesse me falado essas coisas eu nunca saberia que seria vc hehehe!! Amo tbm! :D

boo disse...

Nazinha, não tem mto o que falar neh?
tenho só um pedido pra fazer...
escreve uns textos aki que não deixe a gnt emocionada, viu?
obrigada!
quanto ao cabelo...já conversamos sobre isso!
e mais uma vez, sou sua fã!
:)

Claudinha L. disse...

A vida é mesmo engraçada, passamos por muita coisa. Sua história seria uma história triste se vc fosse uma pessoa fraca, mas não, vc é uma pessoa muito forte, linda, admirável e se não fosse importante pra mim eu nem teria passado aki. Hoje eu tenho vc como um exemplo de vida, para jamais esmorecer. Gosto d+ de ti. Bjo Grande.

Aryana Lobo disse...

Boo Brigada florinha :D E vaiiii, os textos nem são tão assim :P
#AMO!

Conversamos sim sobre os cabelos, e por sinal tenho novidades em relação a eles, vi uma peruca roxa linda *-*

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Claudinha minha flor, vc é especial pra mim! Obrigada por todas ás vezes q surge para me dar força! :D s2

selma disse...

engraçado passei por situação parecida,sabe flor,foi tudo muito dificil...mas tudo que passei foi um aprendizado. Percebi que eu não me resumia só nas minhas madeixas, eu era muito mais que todos aqueles cabelos no chão...queria e quero viver muitooo

Aryana Lobo disse...

Selma... É verdade... Nada se resume somente a madeixas! Esses dias eu chorei por lembrar de como eles eram.. Ai eu vi pessoas falar... que ele já cresceu bastante! E eu vejo isso.. É tudo questão de tempo e outra... Estamos com vida né! E a vida esta ai pra viver!! =)